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Amizade no trabalho: proximidade sem dívida emocional

há 4 horas
3 min de leitura

Há amizades que começam com uma conversa no corredor e acabam atravessando a porta do escritório: um café depois do expediente, uma mensagem sobre algo que não tem nada a ver com a tarefa, a confiança de pedir ajuda sem ensaiar cada palavra. É tentador pensar que a empresa só tem a ganhar com isso. Afinal, quem não prefere trabalhar entre pessoas de quem gosta?


Eu também gosto dessa ideia. Trabalhar com alguém em quem confiamos pode tornar mais fácil pedir ajuda, admitir que não sabemos algo ou atravessar um período difícil. E ainda assim, talvez a pergunta não seja se a amizade combina com o trabalho. A pergunta é o que acontece quando ser amigo e ser colega passam a exigir coisas diferentes da mesma pessoa.


Pesquisadores chamam de relações “multifacetadas” aquelas em que convivência profissional e amizade se sobrepõem. Em dois estudos com funcionários de seguradora, varejo e restaurantes, Methot e colegas encontraram efeitos que não apontam numa única direção: as amizades se associaram a desempenho por meio de confiança, mas também houve custos ligados à manutenção dos vínculos e à exaustão emocional. Isso não prova que amizade prejudique o trabalho; sugere que proximidade também demanda tempo, atenção e cuidado.


A tensão aparece nos pequenos pedidos que parecem impossíveis de recusar. “Você consegue cobrir meu turno?” “Pode revisar isso hoje à noite?” “Você está comigo nessa decisão, não está?” Entre amigos, ajudar pode ser um gesto espontâneo. No trabalho, porém, há prazos, responsabilidades e outras pessoas afetadas. Se o pedido se repete ou vem de alguém com poder sobre a carreira do outro, dizer não pode deixar de parecer uma escolha livre.


Um estudo posterior, com duas amostras de trabalhadores, examinou conflitos entre o papel de amigo e o papel de funcionário. Os autores associaram esses conflitos e o esgotamento de recursos a comportamentos de incivilidade dirigidos a outros colegas. Os resultados não significam que toda amizade cause conflito; os próprios autores registram que um dos efeitos de proteção que testaram não se repetiu no segundo estudo. O achado serve menos como alerta contra a amizade do que como lembrete de que uma relação próxima pode irradiar consequências para além das duas pessoas envolvidas.


Também penso na pessoa que não faz parte daquele círculo. Uma amizade não é, por si, favoritismo. Mas decisões de escala, informação e oportunidade precisam continuar explicáveis para quem observa de fora. Se a amizade se transforma em acesso privilegiado, o problema já não é a intimidade em si. É a dificuldade de separar confiança pessoal de critérios profissionais.


Talvez gestores não precisem escolher entre uma equipe fria e uma equipe que seja uma grande família. Essa oposição cria uma armadilha: se todos são família, o trabalhador pode sentir que deve sacrificar limites pessoais em nome do grupo. Uma alternativa mais honesta é aceitar que os colegas podem gostar uns dos outros sem que isso gere uma dívida de disponibilidade permanente. A amizade pode existir; a imparcialidade e o direito de recusar também.


Isso pede uma liderança que não tente controlar os afetos, mas que deixe claros os padrões de decisão e distribua tarefas com critérios visíveis. E pede de cada um de nós um pouco de atenção: estamos oferecendo ajuda porque queremos, ou porque receamos o que vai acontecer se não oferecermos? A resposta pode mudar de um dia para o outro, de acordo com a posição de cada pessoa e com o contexto.


Talvez relações verdadeiramente boas no trabalho sejam aquelas que sobrevivem ao limite — ao “hoje não consigo”, à discordância numa reunião, à decisão que precisa ser justa para quem é amigo e para quem não é. Se é assim, que espaço a sua equipe oferece para a proximidade sem transformar carinho em obrigação?



Fontes:

•Jessica R. Methot, Jeffery A. Lepine, Nathan P. Podsakoff e Jessica Siegel Christian. “Are Workplace Friendships a Mixed Blessing? Exploring Tradeoffs of Multiplex Relationships and their Associations with Job Performance.” Personnel Psychology, v. 69, n. 2, pp. 311–355, junho de 2016.

•Ulrike Fasbender, Anne Burmeister e Mo Wang. “Managing the Risks and Side Effects of Workplace Friendships: The Moderating Role of Workplace Friendship Self-Efficacy.” Journal of Vocational Behavior, v. 143, artigo 103875, junho de 2023.



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